10 de Julho de 2009

Antônio Risério

"A vanguarda ficou diante do silêncio e do vazio. (...) os que não silenciaram passaram a se mover num campo que já não é o da vanguarda. Por um motivo simples: hoje, é difícil dizer não só onde está a linha dianteira, mas também saber: dianteira do quê? As coisas se pulverizaram. Para que exista vanguarda, é preciso que haja um espaço cultural ordenado, balizado com nitidez. Mas hoje nós estamos vivendo num mundo culturalmente desordenado, descentrado, múltiplo. (...) A própria proliferação de linguagens e meios impede a cristalização de propostas num projeto único. O que fica, então, para nós, não é a vanguarda. O que pode e deve ficar é o seu legado central: a liberdade da linguagem, o cultivo de uma inquietude essencial e a disposição para a criação permanente do novo."

(Antonio Risério, em entrevista publicada no livro "Antonio Risério", coleção Encontros, Azougue, 2009, ps. 176-177)

em 13 entrevistas publicadas nas décadas de 80, 90 e 00 na imprensa (em revistas e diários baianos, paulistas e paranaenses), mas também em livro, suplementadas por uma conversa coletiva, com oito interlocutores (registrada em 2008 especialmente para o volume), o poeta, antropólogo e ensaísta Antonio Risério fala sobre cultura baiana e brasileira (com ênfase na idéia de mestiçagem), contracultura, poesia "em contexto digital" e muitos outros assuntos, em particular o racialismo neonegro (e a excessiva e demagógica reverência do Estado a discursos e programas político-acadêmicos com esse teor). O trecho acima (da entrevista de 2008) - apesar de não propriamente refletir a diversidade de ângulos e as agudas análises dos mais variados tópicos que Risério elabora em suas respostas, nem sua peculiar trajetória intelectual (que transparece na disposição cronológica das entrevistas do livro, característica da coleção Encontros) - está destacado neste blog por condensar uma posição sobre a atualidade das vanguardas com a qual manifesto alguma concordância. Adiciono aqui a hipótese de que a citada "disposição para a criação permanente do novo" seja hoje uma postura transversal, que, estimulada por conceitos e procedimentos das tradições de vanguarda do século 20 e favorecida pela "proliferação de linguagens e meios", atravessa a multiplicidade de segmentos culturais que convivem no ambiente global e conforma zonas de interseção entre esses segmentos e criações imaginárias híbridas, resultantes de investigações e programas que, em alguns casos, ainda caberia classificar como de vanguarda.

por Wladimir Cazé em Silva Horrida dia 30/06/2009

para ver mais sobre o livro Encontros | Antonio Risério

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10 de Julho de 2009

Darcy Ribeiro, por ele mesmo

Ele foi vários. Tem um monte de gente assim. Geralmente são esses que ficam. Militante, romancista, antropólogo, educador, homem público comprometido com o Brasil. Darcy Ribeiro é um exemplo de um Brasil do século vinte.
Vê a questão indígena se amadurecendo e passa por ela não como observador, mas como produtor de conhecimento e iniciativas, como o Museu do Índio.

Acompanha a questão trabalhista e a industrialização brasileira em tempo real ao lado de atores como Jango, Brizola, e vê um Brasil de Educação Superior nascendo e se sistematizando, do qual participa como aluno, tendo aulas com aqueles que ficariam conhecidos como fundadores da USP, e depois como principal articulador da UNB, e vice-governador que teve como foco a educação, pensador dos CIEPs.

A Azougue, dedica a ele um volume da Coleção Encontros. Este livro é uma boa entrada para o estímulo à compreensão do incansável mestre. O entendimento do intelectual, do escritor e do homem. Ao longo da entrevistas pode-se ver a maturidade e a pressa de quem foi derrotado pela política anti-popular e de quem lutava para ficar vivo quando parecia derrotado pelo câncer. Este livro traz Darcy, vivo e vivaz, para quem não o conheceu pessoalmente.

Para mais: Encontros | Darcy Ribeiro e Fundar

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